A terapia do Perdão 3 – Explorando a sua raiva

Nos POSTs passados tivemos vários apontamentos sobre o perdão, nos preparando para começar o processo. Agora vamos discorrer sobre a primeira fase do perdão – EXPLORANDO A RAIVA

Se você ainda não leu os POSTs anteriores, clique: A TERAPIA DO PERDAO 1 ou A TERAPIA DO PERDAO 2

Para dar continuidade ao nosso processo, você já precisa ter escolhido alguém e uma situação específica para trabalhar. Como vou mergulhar nesse processo com vocês escolhi também alguém que eu precise perdoar. Vou correr o risco de me expor um pouco sobre o meu processo de perdão, então conto com a indulgência do leitor quanto às minhas fraquezas.

Da minha parte escolhi perdoar meu cachorro, Jabba. Antes que você estranhe aí do outro lado da tela, pense que, apesar de totalmente ilógico, é possível guardar mágoa de animais e até mesmo objetos inanimados. Quem já não se pegou ressentido porque o computador travou em um momento importante? Ou porque o carro quebrou no meio da estrada? É totalmente ilógico sentir raiva de um objeto inanimado ou de um cachorrinho, mas ainda me pego sentindo raiva e resolvi passar por esse processo para me libertar dela. Tenho a óbvia vantagem de poder ser honesto com vocês sem ofender o Jabba que nunca lerá esse post, e uma chance grande de conseguir já que a ofensa não é tão grande.

Não há maneira correta de responder às perguntas abaixo, só faço uma consideração. Não faça tudo de uma vez! Anote as perguntas em uma folha e a dobre de uma maneira que você desdobre uma pergunta por dia, reflita sobre ela por um tempo prolongado. Afinal, você finalmente vai lidar com algo que te magoa, não vale a pena querer apressar as coisas, e não deixar que o processo psicológico tenha seu tempo. Te encorajo a fazer isso no seu tempo, uma pergunta por dia.

Da minha parte vou atualizando o post com as respostas e insight que obtive com meu próprio processo de perdão. Vamos lá:

Como você evita lidar com a sua raiva?

As vezes para lidar com sentimentos de raiva, adotamos posturas que evitam a dor sem corrigir de verdade o problema. Vamos explorar algumas delas

FINGIR QUE NADA ACONTECEU

As vezes para evitar lidar com o problema fingimos que nunca houve uma ofensa. É como se a gente tentasse deixasse para lidar em um momento mais propício. Mas as vezes esse momento nunca chega. As vezes nós negamos porque não queremos enfrentar aquele que nos magoou.

BUSCAR SUPRIMIR A DOR

Nessa estratégia, ao entrar em contato com a dor ou raiva, buscamos imediatamente alguma atividade/hábito para concentrar nossa atenção. O problema é que essas distrações evitam nossa recuperação

Um exemplo: atendi um paciente que sempre que a esposa o magoava, ele usava bebidas alcoólicas até “se esquecer”. Essa forma de lidar com a raiva agravava seu problema conjugal, alimentava raiva da própria esposa contra ele e prejudicava a resolução do problema.

DESCONTANDO EM OUTROS

Trata-se daquele caso da pessoa que está magoada com o patrão, mas briga é com a esposa em casa. As vezes implica com coisas pequeninas. A raiva é direcionada para outras fontes para se evitar lidar com sua natureza.

Pontos para a reflexão

Você tem evitado lidar com seus sentimentos de raiva ou mágoa, “empurrando” eles para algum canto?

Você tem magoado outras pessoas no processo? Faça uma lista de como utilizar uma das estratégias acima para lidar com o que você sente pode te atrapalhar a se recuperar.

VOCÊ JÁ ENFRENTOU SUA RAIVA?

Agora que você já pensou sobre como tem evitado sentir raiva, pense nos seguintes pontos:

  • A sua mágoa está focada em um único evento, um padrão de atitudes ou um trauma de infância?
  • Foque na pessoa que você está tentando perdoar. Responda às seguintes perguntas:
    • Quem te magoou?
    • Quão profundamente você está magoado?
    • Qual situação específica você irá se focar?
    • Quem teve culpa no processo?

É possível que você tenha contribuído de alguma forma para a situação? Discuta com seu companheiro de jornada sobre a situação e peça por outros pontos de vista. É possível que a raiva tenha nublado seu julgamento a respeito do tema. Mesmo que suas atitudes sejam 1% do problema, reconhecer sua responsabilidade pode ser muito útil no processo. Você pode ter sido insensível?

  • A pessoa foi realmente injusta?
  • Dê uma nota para sua raiva, de 1 a 10, sendo 1 “levemente irritado” a 10 “tão magoado quanto é possível ser”.
  • Há quanto tempo você sente raiva dessa pessoa?
  • Anote o que vem na sua mente ao pensar sobre essa pessoa e sobre o evento injusto pelo qual você passou.
  • Você está bravo com outra pessoa que te lembra essa que te magoou profundamente?
  • Sua raiva te faz sentir ansioso e com medo?

Se você sente que sua raiva tem te controlado, se você sente que bisca vingança e não justiça, se a raiva te faz buscar um comportamento auto-destrutivo, converse sobre isso com seu companheiro de jornada.

Por mais que você queira continuar agora, vou forçar uma parada para que você possa digerir tudo o que refletiu com mais tempo. Semana que vem continuamos a explorar a FASE I.

Se você gostou e acha que esse processo pode ser útil para mais alguém, compartilhe esse POST para que mais pessoas tenham acesso! Até a próxima.

About Rodrigo Scalia

Formado em medicina pela Universidade Federal de Uberlândia. Residência em psiquiatria pela Universidade Federal de Uberlandia, mestrando do Programa de ciências da saúde da Universidade Federal de Uberlândia. Pós graduação em Terapia de familia e casal pelo Instituto de terapia familiar do triângulo