Carrie Fisher – Como se sentir em paz com Transtorno Bipolar

Hoje falece uma grande atriz- Carrie Fisher. Mais do que Leia Organa, Fisher lutava para a diminuição do preconceito que envolve doenças mentais. Portadora de Transtorno Afetivo Bipolar (TAB) , Fisher fez diversos tratamentos, inclusive a Eletroconvulsoterapia, que sempre defendeu. Veja sua resposta a um fã sobre seus esforços em torno do TAB:

“Querida Carrie,

Como uma pessoa que também tem Transtorno Bipolar, eu realmente admiro a forma como você fala abertamente sobre sua saúde mental e faz com que me sinta menos sozinha. Espero que durante as minhas próximas décadas de vida dos 20s aos 60s eu consiga chegar onde você está.

No momento, entretanto, está bem difícil. Estou fazendo o melhor que posso. Eu vou ao médico regularmente e já tentei algumas medicações. Mas tentar lidar com a minha doença mental enquanto tento cumprir todas as inhas obrigações no trabalho, escola e em casa tem sido uma prova de equilíbrio difícil. Alguns dias faço tudo até melhor do que outras pessoas, enquanto em outros deixo tudo em falta. Sinto que é apenas uma questão de tempo para que as coisas tenham um prejuízo irreversível. VocÊ encontrou uma forma de ter paz enquanto seu cérebro faz essa gangorra constantemente? Não consigo ver o fundo do poço e gostaria que você me desse um pouco de perspectiva.

Sinceramente,

Alex”

Resposta de Carrie Fisher:

“Querida Alex,

Você tem sorte de receber o diagnóstico de Transtorno Bipolar e aceitá-lo em uma idade tão nova. Eu fui diagnosticada com 24 anos mas só o aceitei quando tinha 28 anos, após uma overdose e finalmente ficar sóbria. Então eu percebi que só uma doença assim poderia explicar meu comportamento.

Ir ao AA (Alcoólicos Anônimos) me ajudou a ver que havia outras pessoas com problemas e que encontram uma maneira de ter algum alívio ao falar sobre e ao brincar com as dificuldades. Parece que você não tem um problema comórbito com álcool/drogas, mas existem grupos específicos para pessoas com Transtorno Bipolar que podem lhe ajudar.

Inicialmente eu não gostava dos grupos. Eu me sentia que eu tinha sido exilada por 1 hora para um grupo de esquisitos. Mas alguém me disse: “você não precisa gostar dessas reuniões, você só precisa ir repetidamente até aprender a gostar delas”. Isso me pegou de surpresa. Então eu não precisava gostar de tudo o que eu fazia? UAU, isso foi um conceito interessante. Eu achava que só precisava fazer o que tinha desejo de fazer, então eu acreditava que era OK sair de uma atividade que não me dava prazer. Mas se eu não precisava gostar – se eu precisava apenas abaixar minha cabeça e passar por esses sentimentos desagradáveis até chegar aonde precisava- isso pra mim era novidade! Meu conforto não era o mais importante- o fundamental era conseguir passar por sentimentos desagradáveis sem desistir. Por mais que demorasse e mais injusto que parecesse, ia cumprir a minha meta.

Nós somos portadoras de uma doença desafiante, e não há nenhuma opção senão lidar com esse desafio. Pense em uma oportunidade de ser heroína – não do tipo “eu sobrevivi quando Mosul foi atacado” mas do tipo de sobrevivência emocional e intensa. Uma oportunidade de ser um bom exemplo para outros que podem compartilhar desse transtorno. Por isso é tão importante encontrar um grupo de apoio social – não importa quão pequeno seja- de outras pessoas com Transtorno Bipolar para compartilhar experiências e encontrar conforto nas similaridades.

Está parecendo que eu sei do que eu estou falando? A verdade é: eu nunca precisei equilibrar casa, trabalho e escola. Eu abandonei minha casa e os estudos. Então por mais difícil que pareça, você já está fazendo muito mais que eu na sua idade e isso exige coragem.

Você nem sempre precisa gostar muito daquilo que está fazendo, você apenas precisa continuar em frente. Você pode sentir que decepcionou a todos e se sentir derrotada, sem esperança e que está perdida. Mas você entrou em contato com isso – e isso exige coragem. Agora construa a partir disso. Passe por esse sentimentos negativos e me encontre do outro lado. Como sua “irmã bipolar” eu estarei observando. Agora vá e me mostre tudo o que pode fazer.”

(Adaptado de uma resposta de Carrie Fisher à uma fã no jornal britânico The Guardian dia 30 de Novembro de 2016)

Espero que todos possamos passar pelos sentimentos negativos que nos desafiam e te encontrar do outro lado. Que a força esteja com você!

Rodrigo Scalia

About Rodrigo Scalia

Formado em medicina pela Universidade Federal de Uberlândia. Residência em psiquiatria pela Universidade Federal de Uberlandia, mestrando do Programa de ciências da saúde da Universidade Federal de Uberlândia. Pós graduação em Terapia de familia e casal pelo Instituto de terapia familiar do triângulo

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