Comendo e Aprendendo

O cérebro humano é um comilão. Ele representa 2% do peso corporal mas gasta aproximadamente 25% da glicose que consumimos diariamente. A glicose é a principal fonte de energia do cérebro. Em poucas situações, jejum e atividade física intensa, ele consegue usar corpos cetônicos e lactato.  Mas mesmo assim essas moléculas são apenas suplemento energético e não o combustível principal. Por isso é razoável pensar que a qualidade e quantidade dos carboidratos de onde extraímos a glicose pode ter consequências sobre o funcionamento cerebral e sobre o aprendizado. Tem com certeza. E isso é mais importante ainda para as crianças.

Nas crianças o gasto de energia do cérebro é ainda maior que no adulto por que além da energia para manter a atividade normal dos neurônios, produzindo e liberando neurotransmissores, existe ainda o gasto com o desenvolvimento. Uma criança está construindo seu cérebro, aprendendo muito intensamente, fazendo e desfazendo conexões entre os neurônios o tempo todo. O que elas comem no café da manhã por exemplo pode ter consequências horas depois quando estão na escola.

Alguns pesquisadores mostraram que crianças e adolescentes que não fazem o café da manhã regularmente tem um risco maior de se tornarem adultos obesos, fumar, serem sedentários e terem problemas com o uso de álcool. Além de associação hábitos de saúde melhores, tomar sempre o café da manhã garante uma maior interação social da família e melhor desempenho nos testes de QI, com um destaque para as habilidades verbais.

A composição dessa refeição também tem sua importância para a cognição. As refeições podem ser classificadas quanto à sua capacidade de modificar a glicemia utilizando o índice glicêmico e a carga glicêmica. E é esse comportamento da glicemia após a ingestão do alimento que determina mudanças no desempenho de vários testes cognitivos.

O índice glicêmico (IG) de um alimento descreve quão rápido ele consegue elevar o nível de glicose no sangue. Isso é importante por que sabemos que alimentos com índice glicêmicos alto estão mais relacionados ao desenvolvimento de diabetes e outras doenças. Mas o (IG) não fornece toda a informação que é importante quando tentamos entender o efeito da refeição sobre a glicemia. Precisamos também saber o quanto a glicemia vai se elevar, ou quanto de carboidrato vai estar disponível para o metabolismo depois de consumir o alimento. Isso é dado pela Carga Glicêmica (CG).  Calculamos a CG multiplicando o IG pela quantidade do carboidrato no alimento e depois dividindo por 100.

O que sabemos dos estudos é que IG e CG mudam o comportamento em tarefas cognitivas de crianças. Em geral refeições com IG alto (carboidratos refinados e simples) são bons para memória de curta duração e estado de alerta mas também a aumento do cortisol, o hormônio do estresse. A CG alta (cereais integrais, por exemplo) estaria relacionada a sensação de confiança e raciocínio indutivo. Uma refeição que combine IG baixo e CG alta, que fornece um suprimento adequado de glicose sem uma elevação muito rápida da glicemia e da insulina,  é o melhor para o aprendizado. E o resultado é melhor quanto mais difícil a tarefa.

Um curioso estudo feito no Japão mostra que a influência do café na manhã no cérebro vai além de efeito cognitivo. Os pesquisadores compararam crianças que comiam arroz e pão no café da manhã, o seja, a dieta tradicional japonesa e a ocidental. Depois estudaram com ressonância magnética o cérebro delas. O resultado foi muito interessante. As crianças que consumiam arroz tinham um maior volume de substância cinzenta, que é onde estão os corpos dos neurônios, enquanto as que comiam pão tinham maior volume da substância branca. E o QI era maior para o grupo que comia arroz no café da manhã que no grupo do pão.

O que a neurociência nutricional ensina é que alimentar o cérebro das crianças com alimentos de qualidade garante melhor aprendizado e desenvolvimento.

Luiz Carlos

About Luiz Carlos

Luiz Carlos é médico psiquiatra, PhD em Ciências da Saúde e professor na Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Uberlândia. Coordena a Liga Acadêmica de Inovação em Saúde e o ambulatório de Psicogeriatria da Residência Médica de Psiquiatria da UFU. Também é pesquisador na áreas de genética psiquiátrica e do comportamento no Laboratório de Genética da UFU. Além disso estuda terapia de aceitação e compromisso, metodologias de ensino multimídia e inovação em saúde, psicologia positiva. Membro da Associação Brasileira de Psiquiatria e da Association for Contextual Behavioral Science. Sócio da Associação Brasileira de Nutrologia.

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