Quer praticar compaixão?

Lembro-me quando eu era criança e encontrava a minha mãe chorando em algum canto. Eu sentia um aperto na garganta e muitas vezes eu ficava ali por perto e chorava também.

Hoje de manhã, meu filho de 7 meses de idade deu um rolamento por cima de uma almofada e bateu a cabecinha no chão. Ele chorou forte em seguida. Peguei ele no colo para consolar e juro que senti um desejo forte de poder passar a dor dele para mim. Honestamente, eu não me importaria. Mas entendo também que estas vivências serão importantes para ele.

Desejar que nossos filhos não sofram, além de ser uma expectativa não realista com a vida, é algo deturpado. A dor é um importantíssimo mecanismo de defesa. Pessoas com a síndrome de Riley-Day não sentem dor. Elas tendem a morrer jovens por causa dos ferimentos. Raras conseguem viver além dos 20 anos de idade e ficam todas mutiladas. Ou seja, viver sem dor é incompatível.

Acho importante você ter esta consciência para compreender corretamente os limites da nossa existência. Mas mesmo assim, é saudável para a sua mente o cultivo deste sentimento de querer bem, de desejar a proteção do outro, de não querer que ele sofra. A ciência tem nos mostrado um poderoso efeito benéfico para seu estado mental quando esta intensão é cultivada propositalmente.

Se você estiver com fome e começar a pensar em guloseimas, você terá aumento na salivação e na secreção gástrica. Ou seja, seus pensamentos podem influenciar coisas no seu corpo e na sua mente que você jamais conseguiria imaginar. Mesmo que seja algo forçado, percebe?

O prefixo “com” significa estar junto (companheiro, cônjuge, contemplar). Paixão significa sofrimento, dor. Assim, compaixão significa sentir a dor do outro, se sensibilizar com o sofrimento alheio. Popularmente, a compaixão tem esta ideia de pena, piedade.

O termo “compaixão” tem se popularizado muito na nova geração de Psicoterapias e na Psicologia Positiva por se mostrar eficaz na regulação emocional. Este tipo de exercício e prática promove melhora dos estados afetivos e geram sensações e sentimentos agradáveis. Existe inclusive uma nova modalidade de Psicoterapia chamada Terapia Focada na Compaixão (TFC), idealizada e desenvolvida por Paul Gilbert. Ele percebeu que muitos pacientes que não melhoravam na Terapia padrão tinham uma autocrítica muito afiada. Estas pessoas eram muito duras consigo mesmas.

Na verdade, o sentimento de compaixão durante os exercícios de meditação não é bem este que nós estamos habituados a nos referir. A palavra metta, em Sânscrito, representa a bondade amorosa. Trata-se de não somente sofrer com o outro, mas também desejar que ele esteja livre de todo o mal, tenha coisas boas e possa ser feliz.

Vários estudos e pesquisas têm mostrado que quando fazemos inadvertidamente a intenção de desejar a bondade amorosa para nós e para os outros, promovemos mais Saúde Mental em nós mesmos.

O primeiro passo é desejar para você mesmo/a. Você não sai por aí recomendando para as pessoas que você ama coisas que você acredita serem ruins para você. Não faz sentido isto. Então primeiro ofereça para você!

“Que eu esteja livre de todo mal; que eu esteja livre da inimizade; que eu esteja livre da má vontade e do sofrimento; que eu possa ser feliz.”

Algumas pessoas encontrarão dificuldade em fazer isto. Lamento, se isto acontece com você, procure um profissional. Ou um bom professor deste tipo de Meditação. Os tibetanos são ótimos nisso.

Se você consegue facilmente oferecer a intenção metta para você mesmo/a, passe então para a etapa seguinte. Imagine algo que você ame demais. Algo que você nem consiga sentir raiva de vez em quando. Não pode ser do gênero oposto, nem namorado ou cônjuge – ou do mesmo gênero para os homo afetivos. Não deixe de forma alguma que o sentimento metta se confunda com o sentimento sensual.

Escolha algo que lhe desperte um profundo querer bem. Pode ser um amigo, uma criancinha, um bichinho de estimação, um vozinho, aquele garotinho com alguma deficiência (especial). Alguém ou alguma coisa que lhe dê vontade de abraçar, de proteger, de livrar de todo o mal e um desejo genuíno de que ele/a possa ser feliz. Perceba este sentimento e “fotografe” ele na sua mente, ou no seu peito. Memorize este sentimento e registre-o.

“Eu desejo que o “fulano” esteja livre de todo mal, da má vontade, da inimizade, do sofrimento. Eu desejo que ele possa ser feliz!”.

Agora vá para o terceiro passo. Imagine uma pessoa que você mal conheça. Alguém neutro e indiferente para a sua afetividade. Talvez alguém que você nem saiba o nome e conheça somente de vista. Faça novamente a mesma intensão. “Eu desejo que esta pessoa esteja livre de todo mal, da má vontade, da inimizade…”.

Depois, escolha alguém hostil. Vá devagar! Se houver alguém que lhe desperte um forte sentimento aversivo ou de muita raiva, não escolha esta pessoa ainda. Seja mais conservador/a e pegue alguém mais fácil para começar.

“Eu desejo que esta pessoa fique livre de todo mal, livre da má vontade…”. Seja sincero/a!

Por fim, você fará a expansão , propagação e generalização do sentimento metta. Esta etapa da Meditação pode ser feita em 10 minutos, mas também pode demorar duas horas. Vai depender do detalhamento (segmentação) que você vai fazer de agora em diante. Eu recomendo cerca de 20-30 minutos por dia.

Primeiro você vai segmentar por categoria de coisas. Pessoas, seres vivos, seres senscientes, objetos e coisas, etc. Pessoas, por exemplo, dá para segmentar muito. Você poderá se quiser fazer uma Meditação longa, dividir em crianças, velhinhos, homens, mulheres, enfermos, corruptos, etc. Ou pode agrupar todos e fazer a Meditação mais resumida.

Cada grupo escolhido deverá receber a sua intensão lentamente, em etapas. Dividimos depois em localizações também. Eu conheço duas formas de fazer isto. Você pode colocar a intensão aos redores de você, depois na casa, ou prédio que você está. Em seguida no bairro, cidade, estado, país, planeta e universo. Em cada um você vai recitar mentalmente toda a intensão.

Você vai pegar um grupo de pessoas e/ou coisas de cada vez e fazer todo o processo de expansão. “Todas as pessoas aqui perto de mim estejam livres do mal, da inimizade, da má vontade…”. Em seguida, “eu desejo que todas as pessoas nesta casa estejam livres de todo mal, da inimizade…”. E assim sucessivamente.

O outro jeito de expandir é imaginado e mentalizando em todas as “6 direções” (frente, atrás, direita, esquerda, acima e abaixo).  Escolha um dos dois jeitos, não precisa fazer das duas formas.

Daí ficaria mais ou menos assim: “Que todas as criancinhas à minha frente, em direção ao infinito… Estejam livres de todo mal, da inimizade, da má vontade…”. Depois repete todas as outras direções, uma de cada vez.

Esse é um exemplo de Meditação formal, aquela que você tira um tempo do seu dia só para meditar. Assim como os exercícios físicos. Você pode ir para academia, que é uma atividade física muito poderosa, mas tem aquele movimento do dia a dia que é uma atividade física informal.

Vou te ensinar também um jeito de exercitar compaixão de maneira informal. Isto significa que você não vai precisar parar para praticar e sim inserir a prática na sua rotina. Um servente de Pedreiro não precisa ir à academia para ter boa saúde e vigor físico. A prática informal dele já é “Punk”. Da mesma forma, se você conseguir ter uma prática informal meditativa bem intensa, praticamente suprime a necessidade da prática formal. Mas isto é muito difícil de ser sustentado e de se lembrar. O que a maioria dos professores de Meditação recomenda é a combinação das duas práticas, para potencializar os resultados.

Lembra-se daquele sentimento de bondade amorosa, de querer muito o bem, que eu pedi para você fotografar na mente? Então, você vai resgatar esta memória ao longo do seu dia e oferecer às pessoas que você encontrar por aí. Não precisa ser para todo mundo. Faça isto umas 3 vezes ao longo do dia que está ótimo. Faça resumido, ofereça a intenção de felicidade: “eu desejo que esta pessoa seja feliz”. Mentalmente, sem verbalizar. Faça isso com pessoas desconhecidas, com o porteiro do prédio, o caixa da padaria, o frentista do posto de gasolina ou alguém que você ver na rua.

Vou te fazer um desafio. Faça isto três vezes por dia durante 3 dias e depois veja como você irá se sentir. Tire as suas próprias conclusões.

Bruno Caetano

About Bruno Caetano

Dr Bruno Caetano Vieira - CRMMG: 35209 - Graduado em Medicina pela UFU - Residência Médica em Psiquiatria pela UFU - Membro Titular da ABP - Terapeuta Cognitivo-comportamental - Instrutor de Meditação.

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